No supermercado Hyper U, próximo a Paris, Nathalie observa com descontentamento a pontuação de um pacote de biscoitos que seu filho aprecia. Com 0/100 destacado em vermelho, ela se indigna ao descobrir que o produto contém açúcar, gorduras saturadas e aditivos prejudiciais à saúde.

"Olha isso! É um dos favoritos do Malo, mas está cheio de coisas ruins", comenta Nathalie, ao clicar em um dos aditivos que, segundo ela, pode causar problemas nos rins e na medula óssea.

A aplicação Yuka, da qual Nathalie faz uso, permite escanear códigos de barras de produtos alimentares e cosméticos, oferecendo uma análise instantânea sobre sua qualidade. Desde seu lançamento em 2015, o app conquistou 85 milhões de usuários em 12 países, com destaque para os Estados Unidos, onde 28 milhões de pessoas já o utilizam.

O impacto do Yuka nos hábitos alimentares

O Yuka sugere alternativas mais saudáveis após a análise de produtos, embora muitas vezes isso resulte em um aumento nos gastos com itens orgânicos. Nathalie relata que a experiência de compras se tornou mais demorada, e seu filho frequentemente se frustra ao não poder adquirir o que deseja.

O aplicativo é um dos muitos esforços na França para promover escolhas alimentares mais saudáveis. Em 2012, foi lançado o Open Food Facts, um banco de dados colaborativo que fornece informações sobre mais de quatro milhões de produtos alimentares. Além disso, o sistema Nutri-Score, introduzido pelo governo francês em 2017, oferece uma avaliação simplificada da qualidade nutricional dos alimentos.

Críticas e limitações das ferramentas de rastreamento

Embora ferramentas como Yuka e Open Food Facts sejam bem recebidas, especialistas alertam que seu impacto pode ser limitado. Christian Reynolds, especialista em políticas alimentares, afirma que muitas pessoas não têm tempo ou disposição para analisar rótulos e tomar decisões informadas durante as compras.

Serge Hercberg, criador do Nutri-Score, compartilha essa preocupação, observando que esses sistemas tendem a alcançar principalmente consumidores mais privilegiados, que não são necessariamente os mais afetados por problemas de saúde relacionados à alimentação.

Apesar das críticas, Yuka tem demonstrado um impacto positivo nos hábitos de consumo. Pesquisa realizada com 20 mil usuários revelou que 94% deles deixaram de comprar produtos com pontuação negativa no aplicativo. O impacto da ferramenta é notável em grandes redes de supermercados, como a Intermarché, que reformulou mais de 3.000 receitas desde 2017, baseando-se nas pontuações do Yuka.

Além disso, a empresa começou a exibir as pontuações do aplicativo em seu site de compras online, reforçando o compromisso com a transparência e a saúde do consumidor.