Um banco de dados da Organização das Nações Unidas (ONU), que contém informações sobre todos os objetos lançados ao espaço, está fora do ar há meses devido a um problema técnico não explicado. O sistema, criado durante a Guerra Fria para evitar conflitos e paranoia, é considerado crucial em um momento de crescentes tensões entre potências espaciais.

Jonathan McDowell, astrônomo da Universidade de Durham, no Reino Unido, criticou a situação, afirmando: “Isso não é aceitável, especialmente em um tempo de tensões crescentes no espaço, com acusações de comportamentos inadequados sendo trocadas entre diversas potências.”

Importância do banco de dados da ONU

A ONU, por meio do Escritório para Assuntos do Espaço Exterior (UNOOSA), supervisiona o Comitê das Nações Unidas para o Uso Pacífico do Espaço Exterior (COPUOS), onde 104 países, muitos deles com relações tensas ou em conflito, podem discutir e resolver problemas técnicos, políticos ou de segurança relacionados às viagens espaciais.

Um dos papéis do UNOOSA é manter uma lista pública de todos os lançamentos de satélites ao redor do mundo. Essa ideia foi proposta pela primeira vez na ONU em 1961 e ampliada pela Convenção sobre Registro de Objetos Lançados ao Espaço em 1974, com o objetivo de promover a transparência na corrida espacial, à medida que os países desenvolviam espaçonaves com aplicações de vigilância e militares. Como resultado, os países são obrigados a fornecer informações como o nome de cada objeto lançado, data e local do lançamento, detalhes sobre sua órbita e a função geral do dispositivo.

No entanto, o Índice Online de Objetos Lançados ao Espaço está indisponível há meses, com o site da ONU informando apenas que a interrupção se deve a “mudanças obrigatórias feitas na infraestrutura de TI do site da UNOOSA”. A UNOOSA não respondeu a perguntas sobre a natureza do problema ou quanto tempo a situação deverá durar.

Consequências da falta de transparência

McDowell observa que o banco de dados está fora do ar há pelo menos vários meses, com a última atualização registrada em 23 de fevereiro. Ele enfatiza que “é um regime de transparência de segurança que foi acordado e funcionou por cerca de 50 anos, mas se torna inútil se os documentos vão para a ONU e ninguém pode vê-los.”

Ele também destaca a importância da transparência, afirmando que atualmente não se sabe quais são os satélites russos ou americanos, uma vez que os satélites secretos eram incluídos nas declarações da ONU, embora suas funções fossem frequentemente descritas de forma vaga.

Ram Jakhu, da Universidade McGill, no Canadá, alertou que essa interrupção não só representa uma ameaça à paz e segurança internacionais, mas também prejudica a implementação efetiva dos tratados da ONU sobre o espaço exterior, especialmente em casos de acidentes causados por objetos espaciais e detritos.

Thomas Cheney, da Universidade de Northumbria, no Reino Unido, ressaltou que a lista, embora simples, ajuda a tornar o mundo um lugar um pouco mais previsível e seguro. Ele também relacionou o problema a uma crise financeira mais ampla da ONU, que foi exacerbada pela retirada parcial de financiamento dos EUA.