Quase dois meses após a confirmação de um surto de Ebola em uma província da República Democrática do Congo (RDC), o vírus avança rapidamente, alcançando mais áreas do país e infectando um número crescente de pessoas.

Dados do governo, datados de 8 de julho, indicam 1.759 casos e 600 mortes registradas. O vírus também se espalhou para Uganda, onde 20 casos foram confirmados, incluindo duas mortes.

Os surtos são causados pela rara variante Bundibugyo, que não possui tratamento ou vacina aprovada. Wessam Mankoula, chefe de preparação e resposta para o Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças, afirmou em entrevista que este é o surto de crescimento mais rápido já registrado, não apenas entre os surtos de Bundibugyo, mas de todos os diferentes vírus que causam Ebola.

Outra informação preocupante é que o ministério da saúde congolês relatou casos suspeitos nas províncias de Tshopo e Haut-Uélé, indicando a continuidade da propagação da doença além do centro em Ituri.

Fatores que intensificam a propagação do Ebola

Especialistas apontam que a disseminação da doença é intensificada por diversos fatores, incluindo conflitos armados, cortes em ajudas humanitárias e ataques a trabalhadores da saúde e centros de tratamento. Eles alertam que o surto pode se tornar o mais mortal já registrado.

O surto na RDC foi inicialmente relatado em maio na província de Ituri, e se espalhou para as províncias vizinhas de Kivu do Norte e Kivu do Sul, que são locais de conflitos armados prolongados. Ituri, em particular, é o centro de um conflito entre milícias que disputam o controle de recursos minerais.

Ladd Serwat, analista sênior do grupo de monitoramento de conflitos Acled, observou que grupos armados na província dificultaram o acesso humanitário no passado, especialmente em comunidades percebidas como alinhadas a grupos étnicos rivais.

Impacto do colapso do financiamento humanitário

O financiamento humanitário para a RDC caiu drasticamente em 2025, em grande parte devido à suspensão de ajuda externa pela administração Trump a programas financiados pelo Departamento de Estado. Carla Martinez, chefe do escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários na RDC, informou que a redução de recursos levou mais de 10 organizações humanitárias a reduzir ou suspender suas atividades.

Essa situação enfraqueceu os sistemas de saúde locais e as redes de vigilância, dificultando a detecção e contenção rápida de surtos, aumentando os riscos associados ao Ebola e outras doenças. Segundo Martinez, "o surto de Ebola é um lembrete claro de que quando os sistemas humanitários são subfinanciados, eles se tornam mais vulneráveis a novas emergências".

Ameaças aos trabalhadores da saúde

Os trabalhadores da saúde e os centros de tratamento para Ebola enfrentaram ataques tanto no atual surto quanto em surtos anteriores em Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul. Esses incidentes incluem violência e danos a propriedades, interrompendo a prestação de serviços essenciais.

Durante o surto atual, 10 voluntários da Cruz Vermelha foram atacados, com quatro deles sofrendo ferimentos. Alex Lock, porta-voz da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, destacou que a maioria dos incidentes ocorreu durante sepultamentos seguros realizados por voluntários, motivados por desconfiança alimentada por rumores e desinformação sobre a doença.