Com a construção de uma hidrelétrica se aproximando, arqueólogos aceleraram os trabalhos em Caculo Cabaça, em Angola, onde foram encontrados os enterros mais antigos do país, incluindo uma cremação única, datados do século XV. O estudo foi publicado no Journal of Field Archaeology.
A equipe de pesquisa teve que agir rapidamente, uma vez que o local estava prestes a ser submerso pelo reservatório da represa. Sofia Mateus Simplício D'Oliveira, doutoranda do Muséum national d'Histoire naturelle, em Paris, destacou: "Demos prioridade aos locais que sabíamos que em breve desapareceriam".
Uma Paisagem de Túmulos
Embora estruturas de pedra sejam comuns em Angola, nenhuma havia sido datada antes do século XVI, o que gerou questionamentos sobre a origem dessas tradições. A descoberta de edificações de pedra por trabalhadores da construção civil em 2023 alterou essa narrativa, levando os arqueólogos a escavar o local.
Antes de iniciar as escavações, o terreno foi inspecionado em busca de minas terrestres, um legado da guerra civil em Angola. Após a limpeza, os anciãos locais, conhecidos como Sobas, realizaram uma cerimônia que incluía a oferta de ovos, pão, vinho e suco aos ancestrais, além do sacrifício de uma cabra para pedir proteção e permissão ancestral.
No total, foram registrados 117 agrupamentos de estruturas de pedra e escavadas 65 edificações individuais, incluindo túmulos de pedra sobre os quais foram encontrados restos humanos. Radiocarbono datou os enterros no início dos anos 1400, décadas antes da chegada dos portugueses.
Enterros e Artefatos Reveladores
Seis túmulos continham restos humanos, um momento que D'Oliveira descreveu como "muito emocionante, mas também avassalador". Os corpos estavam dispostos de diferentes maneiras, incluindo alguns deitados de lado e outros sentados, com os joelhos puxados para o peito, uma postura associada a chefes e elites na tradição angolana. Contudo, a pesquisadora alertou que a situação é mais complexa, já que os enterros sentados não apresentavam bens de prestígio, mas sim objetos simples como pedras de moagem, cerâmicas e até escórias de ferro.
A presença de ferramentas de moagem levanta questões sobre o papel desses artefatos, se eram simbólicos ou se indicavam identidade e status social. D'Oliveira sugeriu que isso poderia indicar uma interpretação mais complexa do status social, possivelmente incluindo mulheres em posições de importância social ou ritual.
Entre as descobertas, um vaso quebrado e queimado, que continha restos cremados de um crânio e dentes, se destacou como o mais "único" achado. Sem paralelo na arqueologia angolana, suas funções são comparadas a ilustrações de cerimônias feitas no século XVII por Antonio Cavazzi, que mostravam a cerâmica no centro de rituais de lealdade e sacrifícios.
Apesar da iminente submersão do local, a equipe já identificou outras estruturas de pedra fora da zona de inundação, trazendo esperança para D'Oliveira e seus colegas, que acreditam que "continuação das escavações e pesquisas em áreas preservadas permanece não apenas possível, mas importante".
"Essa descoberta não se resume a enterros antigos ou estruturas de pedra. Ela revela uma história mais profunda e ainda amplamente não documentada de Angola", concluiu D'Oliveira.
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