Um fenômeno climático de El Niño em rápida intensificação está prestes a causar inundações severas, doenças e secas em algumas das comunidades mais vulneráveis do mundo, segundo um alerta da International Rescue Committee (IRC). Países como Quênia, Uganda, Somália, Bangladesh, Paquistão e Afeganistão estão entre os mais ameaçados, muitos dos quais já enfrentam emergências humanitárias em curso.
Na segunda-feira, Bob Kitchen, um dos principais responsáveis por emergências da IRC, declarou: “Estamos observando várias emergências convergirem ao mesmo tempo, e os lugares menos equipados para absorver outro choque estão no alvo.”
Previsões climáticas e impactos esperados
O Centro de Previsão Climática dos EUA informou em 9 de julho que o El Niño está se fortalecendo rapidamente, com 81% de chances de se tornar um dos eventos mais poderosos desde 1950, com pico previsto entre outubro e dezembro. A Organização Meteorológica Mundial (WMO) da ONU afirmou no início de julho que as condições de El Niño já se desenvolveram e devem se intensificar entre julho e setembro.
O cientista climático Daniel Swain mencionou em seu canal no YouTube que as temperaturas do oceano no Pacífico equatorial já estão em níveis recordes para este período do ano, chamando a situação de “uma enorme história de grande consequência para o mundo”. As comunidades afetadas pelo El Niño já estão esgotadas devido a secas, conflitos e orçamentos de ajuda em redução, o que limita sua capacidade de enfrentar mais um choque.
Efeitos globais e regionais do fenômeno
El Niño é uma mudança natural nas temperaturas do Oceano Pacífico que ocorre a cada dois a sete anos, quando os ventos alísios, que normalmente empurram águas quentes para o oeste, enfraquecem, permitindo que o calor se espalhe de volta pelo oceano. Os efeitos desse fenômeno se espalham pelo mundo, trazendo chuvas intensas para algumas regiões enquanto reduz a precipitação em outras.
No Leste Africano, este padrão geralmente resulta em um meio do ano mais seco, seguido por um período chuvoso entre outubro e dezembro, efeito que os meteorologistas acreditam que será acentuado este ano por um padrão de aquecimento relacionado no Oceano Índico. Em Somália, chuvas intensas já causaram inundações em partes da capital, Mogadishu, neste ano.
O FEWS NET, órgão de alerta precoce financiado pelos EUA, avaliou um risco credível de fome nas regiões do sul se as inundações deste ano forem semelhantes às de 1997 ou 2023, quando a combinação de El Niño e Oceano Índico submergiu terras agrícolas e deslocou centenas de milhares de pessoas.
O serviço meteorológico do Quênia confirmou uma probabilidade de 80-82% de que o El Niño persista ao longo do ano e ativou seu plano nacional de desastres em antecipação a chuvas mais intensas entre outubro e dezembro, após um meio do ano mais seco. Em Bangladesh, pelo menos 15 refugiados rohingyas foram mortos e mais de 10.000 deslocados devido a deslizamentos de terra e inundações nos campos de Cox's Bazar desde o início de julho.
O Paquistão enfrenta uma divisão semelhante entre seca e inundação, com precipitações abaixo da média esperadas em geral, mesmo enquanto suas montanhas do norte correm o risco de inundações súbitas devido ao derretimento de glaciares. O Banco Mundial alertou que, se o El Niño se desenvolver completamente, a produção de arroz pode cair entre um quinto e metade nas partes mais afetadas do Sul da Ásia e da África Oriental, onde o alimento básico é fundamental para a segurança alimentar de centenas de milhões de pessoas.
Esse cenário tende a agravar a escassez de alimentos e as pressões sobre os preços, especialmente com a escalada do conflito entre EUA e Israel contra o Irã, que afeta o estreito de Ormuz, um ponto crítico para o fornecimento global de energia e fertilizantes. Os custos dos fertilizantes já aumentaram significativamente neste ano.
Organizações de ajuda, incluindo a International Rescue Committee, estão instando os doadores a financiar medidas preventivas agora, em vez de esperar que a catástrofe aconteça.
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