Nos últimos meses, o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, passou a considerar a inteligência artificial (IA) como uma variável significativa em suas análises sobre inflação. Embora os investimentos nesse setor possam ser inflacionários, há a expectativa de que, no futuro, eles resultem em aumento da produtividade e redução de preços.
A magnitude dos investimentos em IA está projetada para estimular a demanda. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, destacou que a IA está “elevando custos, pressionando preços de recursos como chips, mão de obra especializada e, principalmente, energia. Há estimativas de investimentos em infraestrutura de mais de US$ 700 bilhões, incluindo a construção de data centers e a contratação de mão de obra em um mercado de trabalho já apertado”.
A ata da reunião sobre a decisão de juros realizada em junho, divulgada no início de julho, revelou que os diretores do Fed perceberam que o aumento da demanda decorrente da construção de infraestrutura relacionada à IA está gerando pressão sobre os preços. Contudo, o presidente do Fed, Kevin Warsh, minimizou os impactos, afirmando que a instituição decidirá se a IA terá efeitos inflacionários.
Em audiência na Comissão de Assuntos Bancários do Senado, Warsh reconheceu que a IA pode causar perturbações no mercado de trabalho no curto prazo, uma vez que a demanda tende a aumentar mais rapidamente do que a oferta. No entanto, ele acredita que os investimentos em IA serão benéficos para a criação de empregos.
Warsh também observou que, com o mercado de trabalho estável e o desemprego baixo, uma variação pontual nos preços causada pela IA não é necessariamente um sinal de inflação. O presidente do Fed mencionou que tem solicitado acesso a novos modelos de IA para uso institucional.
De acordo com Perri, os ganhos de produtividade esperados da IA têm um efeito “essencialmente desinflacionário”, pois, ao invés de a demanda aumentar, a oferta deverá se expandir.
GASTOS ACELERADOS
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e informação, explicou que os fatores que influenciam a inflação mudam ao longo do tempo. Ele citou que, no passado, no Brasil, a posse de bens como telefone fixo e acesso a jornais influenciavam a inflação. Atualmente, com o uso crescente da IA, os custos associados a essa tecnologia também se tornam relevantes. Igreja mencionou o elevado consumo de tokens, que pode ser explosivo, como um exemplo.
Ele relatou que uma empresa gastou US$ 500 milhões com a IA Claude, desenvolvida pela Anthropic, sem estabelecer limites de uso para seus funcionários, destacando a importância dos custos operacionais da IA, que se assemelham a contas de água e luz.
EFEITO NOS JUROS
Ainda que seja desafiador mensurar o impacto da IA nas taxas de juros nos EUA, especialistas concordam que esse impacto existe. Perri afirmou que “como qualquer outro choque de demanda que pressione preços e expectativas para cima, isso pode levar o Fed a adotar uma postura mais restritiva. Contudo, se os ganhos de produtividade se confirmarem, pode haver espaço para juros estruturalmente mais baixos”.
O trabalho do Fed poderá se complicar se a bolha da inteligência artificial estourar, caso os investimentos não correspondam aos ganhos esperados, o que poderia gerar desarranjos econômicos e impactos na política monetária.
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