Fabricantes de veículos elétricos (EVs) da China estão ampliando sua presença global por meio de investimentos e construção de fábricas em praticamente todos os continentes, superando as montadoras americanas em termos de investimento. Analistas apontam que os EUA correm o risco de se tornarem menos competitivos à medida que a China fortalece sua posição no mercado.
"Estamos diante de uma situação em que empresas como a BYD da China estão se tornando essencialmente as novas GMs e Fords da era dos EVs", afirmou Kyle Chan, pesquisador do Brookings Institution. Segundo ele, essas empresas estão se beneficiando da escala, montando cadeias de suprimento globais e realizando investimentos de longo prazo ao redor do mundo. Isso tornará cada vez mais difícil para os concorrentes deslocarem as montadoras chinesas de suas posições de liderança.
Investimentos em números
De acordo com a Atlas Public Policy, um think tank que monitora investimentos em tecnologia limpa, as empresas chinesas anunciaram investimentos no exterior em EVs e baterias que totalizam quase US$ 101 bilhões entre 2019 e 2025. Em contrapartida, as empresas dos EUA investiram pouco mais de US$ 38 bilhões no mesmo período.
As estimativas sobre os investimentos chineses variam. O analista Armand Meyer, do Rhodium Group, sugere que os investimentos diretos estrangeiros de empresas chinesas em todos os setores de tecnologia limpa — incluindo solar, eólica e EVs — desde 2014 somam cerca de US$ 173 bilhões. Essa cifra é significativamente inferior ao que outros grupos de monitoramento reportaram, que alcançam quase US$ 400 bilhões. O Rhodium Group também indicou que apenas cerca da metade dos anúncios que monitoraram, aproximadamente US$ 85 bilhões, se concretizaram na forma de fábricas ou instalações.
Motivos para a expansão
Três fatores principais explicam o crescimento dos investimentos chineses no exterior. Primeiro, o mercado automotivo doméstico da China está saturado, conforme Chan, enfrentando guerras de preços e capacidade excessiva. Isso torna a lucratividade no país bastante desafiadora. O próximo passo para essas empresas é, portanto, olhar para mercados globais.
Além disso, a demanda por EVs chineses no exterior tem se mostrado robusta. Segundo o analista Felipe Muñoz, 80% dos veículos elétricos vendidos na América Latina são chineses. Em um relatório recente, Muñoz destacou que o crescimento da demanda por carros chineses fora da China está acelerando.
Por fim, as barreiras tarifárias impostas por vários países em resposta ao aumento das importações de EVs chineses têm incentivado esses investimentos. Países que oferecem acesso a grandes mercados ou são mercados significativos por si só têm atraído a maioria dos investimentos chineses.
Chan menciona que a construção de fábricas em locais estratégicos, como uma unidade na Hungria, proporciona acesso ao mercado da União Europeia sem tarifas, o que é um fator crucial para a decisão de investimento.
As montadoras que estabelecem uma presença global podem aumentar sua participação no mercado, assegurar uma cadeia de suprimento completa e estar à frente em tecnologias emergentes, que vão além dos veículos elétricos. Segundo Chan, essa situação pode ter efeitos colaterais em outras indústrias interligadas, como a robótica.
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