Pesquisadores brasileiros comprovaram que fungos do gênero Trichoderma têm potencial para combater uma das doenças mais prejudiciais à pupunheira, uma cultura vital para a produção de palmito no Brasil. O estudo revelou que espécies como Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum reduziram significativamente o avanço de Phytophthora palmivora, o fungo responsável pela podridão da base do caule da planta, considerada a maior ameaça à cultura.
Avanços na pesquisa e metodologias aplicadas
De acordo com Eduardo Jun Fuzitani, pesquisador da Apta Regional de Pariquera-Açu, a pesquisa trouxe um avanço metodológico significativo. Pela primeira vez, foi desenvolvido um sistema eficaz de inoculação, que permite a introdução controlada do fungo causador da doença e dos agentes de controle biológico em partes do caule da pupunheira para realização de testes. “A técnica permite simular a infecção em condições controladas de laboratório, reduzindo custos e acelerando estudos sobre o manejo da doença”, afirma Fuzitani.
A pupunheira, cientificamente conhecida como Bactris gasipaes, ganhou destaque no mercado brasileiro após a exploração predatória da juçara, que diminuiu drasticamente os estoques naturais na Mata Atlântica. Desde então, seu cultivo se expandiu, especialmente em São Paulo e Bahia, além de regiões do Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Espírito Santo. A cultura oferece vantagens econômicas, como rápido crescimento e menor oxidação do palmito, permitindo a venda do produto in natura.
Contudo, segundo Álvaro Figueredo dos Santos, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a ampliação das áreas cultivadas acarretou o aumento de doenças associadas ao monocultivo, como a podridão da base do caule, provocada por Phytophthora palmivora.
Controle biológico como alternativa sustentável
Santos destaca que as opções de controle da doença são limitadas, seja por fungicidas ou variedades resistentes. O uso intensivo de produtos químicos gera preocupações ambientais e sanitárias, especialmente porque o palmito pode ser consumido cru. Nesse cenário, o controle biológico se apresenta como uma alternativa sustentável e economicamente viável.
Wagner Bettiol, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente (SP), explica que os fungos do gênero Trichoderma atuam de diversas formas contra organismos causadores de doenças em plantas. “Eles competem por nutrientes, produzem substâncias antifúngicas e estimulam mecanismos naturais de defesa das plantas”, afirma.
Resultados promissores nas aplicações preventivas
O estudo avaliou quatro isolados comerciais: dois de Trichoderma harzianum e dois de Trichoderma asperellum. Os testes in vitro mostraram forte capacidade de inibição do crescimento do patógeno, com reduções de 94% e 91% para os isolados TH2 e TH1 de Trichoderma harzianum, e de 80% e 61% para os isolados TA2 e TA1 de Trichoderma asperellum.
Os resultados mais significativos foram obtidos quando os fungos foram aplicados antes da inoculação do patógeno, reduzindo a severidade da doença. O isolado TH2 de Trichoderma harzianum demonstrou os melhores índices de proteção, principalmente em testes realizados 48 horas antes da infecção.
Os testes também mostraram que a colonização do patógeno foi bloqueada em alguns casos, com o fungo benéfico ocupando rapidamente os tecidos internos da pupunheira, dificultando o estabelecimento de Phytophthora palmivora. Essa ocupação prévia é crucial para o sucesso do controle biológico.
Os pesquisadores notaram que as estratégias preventivas superaram as curativas. Quando o Trichoderma foi aplicado após a infecção, os resultados foram menos eficazes. Fuzitani ressalta a importância de priorizar aplicações preventivas para o manejo da doença, já que o patógeno se torna mais difícil de combater uma vez instalado no tecido vegetal.
Outro achado importante foi a colonização endofítica dos tecidos da pupunheira pelos fungos antagonistas, que conseguiram penetrar e crescer internamente sem causar danos. Os tecidos colonizados por Trichoderma permaneceram saudáveis, enquanto os infectados por Phytophthora palmivora mostraram sinais de podridão.
Os autores do estudo destacam que produtos comerciais à base de Trichoderma estão disponíveis no Brasil, facilitando a adoção da tecnologia pelos produtores. “Espécies como Trichoderma harzianum e Trichoderma asperellum são amplamente utilizadas no mundo, devido aos seus múltiplos mecanismos de ação e baixo impacto ambiental”, conclui Bettiol.
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