O governo da Nicarágua, liderado por Daniel Ortega e Rosario Murillo, revogou as licenças de um grande número de advogados, o que é interpretado por críticos como mais uma medida de repressão contra opositores do regime. A ação foi anunciada na última sexta-feira, quando um especialista da Organização das Nações Unidas descreveu a decisão como uma "purga da profissão jurídica", com o objetivo de minar os últimos vestígios de controles democráticos no país.
Contexto da repressão política na Nicarágua
Desde 2018, após violentas repressões a protestos sociais, o governo nicaraguense tem intensificado sua campanha contra adversários políticos, jornalistas, líderes religiosos e outros críticos. Essa repressão resultou na prisão de diversos opositores e na fuga de milhares de cidadãos do país. Além disso, o governo tem confiscado a cidadania e propriedades de centenas de pessoas e fechado mais de 5.000 organizações não governamentais, incluindo grupos religiosos e sociais.
Revogação de licenças sem aviso prévio
Recentemente, advogados perceberam que suas licenças foram removidas sem explicação do registro do Supremo Tribunal de Justiça. Reed Brody, advogado de direitos humanos e membro de um painel da ONU sobre a Nicarágua, relatou que o alcance total dessa revogação ainda não é claro, mas sugere que “certamente parece ser pelo menos centenas, senão milhares de advogados” afetados. Brody também destacou que não houve notificação oficial do governo, que não respondeu a solicitações de comentários da agência de notícias Associated Press.
Juan Diego Barberena, um advogado e defensor dos direitos humanos exilado na Costa Rica desde 2022, foi um dos que perderam sua certificação. Ele relatou que ao tentar acessar seu cadastro no sistema governamental, descobriu que seu nome e número de licença haviam sido apagados. “Isso é um meio de exercer controle totalitário sobre a profissão jurídica”, afirmou Barberena. “Isso significa que a ditadura pode decidir quem pode praticar e quem não pode.”
Consequências para a profissão jurídica e a sociedade
A revogação das licenças não afeta apenas opositores do regime, mas também advogados que atuam em áreas como direito criminal e de família, além de simpatizantes do governo. Para Barberena e Brody, essa movimentação é uma tentativa de eliminar qualquer vestígio de independência no sistema judiciário, já sob o controle de Ortega e Murillo.
Barberena enfatizou que a medida é, de um lado, uma punição arbitrária para a dissidência política e, de outro, uma estratégia de longo prazo da ditadura para impedir que advogados e acadêmicos participem do futuro das instituições do país.
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