A declaração de Donald Trump sobre a importação de carne bovina tem um significado que vai muito além do comércio entre Brasil e Estados Unidos.
Depois de meses de tarifas, críticas e desentendimentos, o presidente americano confirmou que boa parte da carne adicional comprada pelo país virá do Brasil e da Argentina.
É a realidade econômica falando mais alto que o discurso político. Os Estados Unidos autorizaram a entrada de até 300 mil toneladas adicionais de carne bovina magra, sem a tarifa cobrada fora da cota, durante 90 dias.
O objetivo é ampliar a oferta e tentar reduzir o preço da carne moída, um produto presente no dia a dia das famílias americanas.
Trump sabe que a inflação dos alimentos chega rapidamente ao eleitor. Ela aparece no supermercado, no restaurante e no preço do hambúrguer.
Com as eleições legislativas se aproximando, deixar a carne subir demais pode custar caro politicamente.
O limite do ‘America First’
A decisão revela uma contradição. Trump defende a produção nacional e promete proteger o pecuarista americano. Mas, quando a oferta interna não é suficiente e os preços pressionam o consumidor, precisa abrir espaço para o produto estrangeiro.
E o Brasil aparece entre os poucos países capazes de atender rapidamente a essa necessidade, com volume, qualidade e regularidade.
Isso não significa que sejamos insubstituíveis. Nenhum fornecedor deve se imaginar nessa posição. Mas mostra que o Brasil é cada vez mais difícil de ser ignorado quando o mundo precisa ampliar a oferta de alimentos.
Tenho insistido nesse ponto: o Brasil não é apenas um exportador de commodities. É uma parte estratégica da segurança alimentar mundial.
Governos podem aumentar tarifas, estabelecer barreiras e transformar o comércio em instrumento de pressão política. Mas não conseguem desafiar por muito tempo a realidade da oferta e da demanda.
Foi o que aconteceu agora nos Estados Unidos. A necessidade de controlar os preços obrigou Trump a reconhecer a importância da carne brasileira, apesar das divergências recentes entre os dois países.
Uma lição também para a Europa
A União Europeia acaba de impor restrições a produtos brasileiros por exigências regulatórias e sanitárias. Essas questões precisam ser resolvidas tecnicamente, com transparência e sem improvisação.
Mas há uma realidade que os europeus também não poderão desprezar.
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