O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um paradoxo: apesar de o desemprego ter atingido seu menor patamar histórico, em 5,6% em maio de 2023, e a economia apresentar crescimento acima das expectativas, 44% dos brasileiros acreditam que a situação econômica piorou nos últimos 12 meses, conforme pesquisa Genial/Quaest de junho.
A economista Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e membro do 'Conselhão' de Lula, tem se dedicado a investigar essa desconexão. Em seu recente artigo, intitulado "Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia", coautorado com o economista Guilherme Klein Martins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Carvalho aponta quatro fatores principais para essa insatisfação.
Fatores que explicam a insatisfação
Os economistas identificam a inflação persistente, a comparação com o ciclo de mobilidade social dos anos 2000, o impacto das redes sociais nos desejos de consumo e a frustração de uma geração escolarizada como os principais elementos que contribuem para a sensação de insatisfação. "Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil", explica Carvalho em entrevista à BBC News Brasil.
Ela observa que, enquanto nos anos 2000 a distribuição de renda e o crescimento econômico incluíram uma parte da população anteriormente excluída do mercado consumidor, atualmente essa nova classe média não se sente satisfeita com o mesmo padrão de consumo. "A nova classe média passou a ter acesso a bens como geladeiras e viagens de avião, mas suas aspirações cresceram e se tornaram mais elevadas", afirma a economista.
A desigualdade e a necessidade de uma nova agenda
Em sua análise, Carvalho também discute a persistência da desigualdade no Brasil, que continua entre as mais altas do mundo, mesmo com o aumento do gasto governamental em políticas sociais. Ela argumenta que a desigualdade é caracterizada por uma concentração de renda no topo da pirâmide, enquanto a desigualdade entre o meio e a base da pirâmide foi reduzida por meio de programas sociais.
A economista propõe uma agenda que inclua a expansão dos serviços públicos e a diversificação da economia para gerar empregos qualificados. Além disso, ressalta a importância de avançar na tributação de riqueza, uma vez que a concentração de riqueza perpetua a desigualdade. "O debate deve avançar para alguma forma de taxação de riqueza", defende Carvalho.
Carvalho também discute o papel da dívida pública na perpetuação da desigualdade, afirmando que a elevada dívida pública transfere renda para os mais ricos, exacerbando a situação. "O Estado brasileiro acaba por transferir renda para os mais ricos por meio da dívida pública elevada, que paga juros altos", conclui.
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