O aumento do investimento em infraestrutura digital no Sul Global traz à tona questões cruciais sobre justiça ambiental. Conforme países dessa região se tornam protagonistas na cadeia global de tecnologia, pesquisadores analisam como isso impacta comunidades, saúde e meio ambiente.

Desafios do crescimento tecnológico

Bilal Butt, professor da Universidade de Michigan, destaca que a análise deve abranger todo o ecossistema, e não apenas tecnologias isoladas. Ele questiona: 'Se houver mais infraestrutura tecnológica no Sul Global, como será alimentada? De onde virá a eletricidade, e qual infraestrutura será necessária para gerá-la e transmiti-la?'

Um exemplo citado por Butt é o projeto de energia eólica do Lago Turkana, no Quênia. Embora a geração de eletricidade tenha sido concluída, a infraestrutura de transmissão levou anos para ser finalizada, evidenciando a importância de considerar os sistemas políticos e econômicos que tornam tais projetos viáveis.

A complexidade das políticas locais

Em relação à percepção de que países como a Índia são 'lixões de IA', Butt argumenta que é fundamental entender a diversidade de políticas e experiências locais. 'A política agrícola em Haryana difere daquela em Maharashtra ou Punjab', explica. Essa abordagem permite uma análise mais rica, que considera a história específica de cada local.

O pesquisador também observa que a história da violência ambiental e do ativismo na Índia é complexa e requer uma análise detalhada das condições locais, evitando generalizações que podem distorcer a realidade.

Resíduos eletrônicos e desigualdade

Butt ressalta que a transferência de poluição para regiões com mão de obra barata e proteções ambientais fracas é uma prática antiga. Ele menciona a indústria de desmantelamento de navios na Índia, Bangladesh e Paquistão, onde trabalhadores enfrentam riscos maiores devido a sistemas de trabalho e regulação desiguais, refletindo relações coloniais.

Além disso, Butt aponta que a conversa atual sobre IA e infraestrutura digital deve ser contextualizada dentro de uma história mais ampla de produção industrial e extração de recursos. Ele desmistifica a ideia de que a tecnologia moderna, como a IA, cria novos problemas, afirmando que a computação sempre dependia de hardware, eletricidade e trabalho humano.

Por fim, Butt destaca que as comunidades que recebem resíduos eletrônicos não são meras vítimas passivas. Ao contrário, são espaços organizados com sistemas complexos de governança e trabalho, onde gênero e desigualdade social influenciam quem realiza os trabalhos mais perigosos.