Um estudo realizado pela Universidade de Oxford e pelo Stockholm Resilience Centre, da Universidade de Estocolmo, revelou que a grande maioria dos compromissos de biodiversidade feitos por 180 corporações influentes não possui detalhes suficientes para que a sociedade possa avaliar o progresso em relação a essas promessas. Os resultados foram publicados na revista One Earth.

O problema da lacuna de responsabilidade

A pesquisa identificou 180 grandes corporações transnacionais, consideradas "keystone", que operam em diversos setores e têm impactos ambientais significativos. Apesar de 79% dessas empresas terem feito algum tipo de promessa relacionada à biodiversidade, apenas 13% apresentaram compromissos suficientemente detalhados e transparentes, permitindo a avaliação do cumprimento das metas. Essa falta de clareza representa um obstáculo fundamental para a responsabilidade corporativa.

Nos últimos 50 anos, essas corporações ganharam uma influência significativa sobre os recursos naturais do mundo, levando a biodiversidade a se tornar uma prioridade na agenda corporativa. Embora muitas empresas tenham feito promessas, esses compromissos ainda não são adequados para garantir a responsabilidade total.

O autor sênior do estudo, Dr. Sophus zu Ermgassen, do Departamento de Biologia da Universidade de Oxford, afirmou: "As empresas devem ser tanto ambiciosas quanto práticas: compromissos significativos vão além das ações exigidas por lei e devem incluir planos de implementação claros. Melhorar os compromissos é apenas o primeiro passo."

Como identificar um compromisso inadequado

A pesquisa também destaca como distinguir um compromisso real de um vazio. Entre os compromissos considerados não robustos, foram identificados problemas recorrentes, como falta de clareza, terminologia contraditória ou mal definida, e uso seletivo de evidências para justificar a inação ou ambições limitadas.

Um exemplo citado foi o de uma empresa agroquímica que se apoiou em uma análise que comissionou para afirmar que os pesticidas não são um dos principais responsáveis pela diminuição das populações de insetos.

O coautor do estudo, Dr. Thomas White, também do Departamento de Biologia da Universidade de Oxford, comentou: "Embora seja promissor ver muitas empresas fazendo promessas sobre biodiversidade, atualmente não podemos determinar o que essas promessas realmente significam e se as ações estão contribuindo para metas globais. Com metas e ações claras e ambiciosas, as corporações keystone poderiam atuar como gestoras da biosfera e promover mudanças transformadoras."

A pesquisa ainda revelou que a robustez dos compromissos varia significativamente entre os setores. Das 23 empresas com pelo menos um compromisso que atendia a todos os critérios, 18 pertenciam ao setor de agricultura e pecuária. No setor de cacau, todas as cinco empresas avaliadas fizeram compromissos, com quatro delas apresentando compromissos robustos.

Em contrapartida, os compromissos de biodiversidade foram escassos em setores como farmacêuticos para animais e petróleo e gás, com metade das empresas farmacêuticas para animais não apresentando compromissos nesse sentido.

Barreiras e melhorias nos compromissos

Os pesquisadores destacaram várias barreiras potenciais para a efetividade dos compromissos, incluindo a falta de alinhamento com interesses comerciais, risco reputacional associado ao não cumprimento de metas, limitações no conhecimento disponível sobre a definição de compromissos e dados insuficientes sobre os impactos da biodiversidade nas cadeias de suprimento.

Para melhorar os compromissos, os pesquisadores sugerem medidas como a exigência de relatórios obrigatórios, colaboração entre empresas e ciência, iniciativas de sustentabilidade setoriais e maior pressão de bolsas de valores e financiadores para integrar a divulgação de biodiversidade nas exigências de listagem.

Este estudo representa um marco na identificação das empresas com maior influência sobre a biosfera e na clarificação de suas responsabilidades para ajudar a interromper e reverter a perda de biodiversidade.