Na manhã de um dia recente, Anna Holovchenko foi despertada por bombardeios em sua cidade natal, Zaporizhzhia, localizada no leste da Ucrânia. A segurança na região se deteriorou drasticamente nas últimas semanas, com a cidade, que abriga cerca de 750 mil pessoas, a apenas 24 km da linha de frente, sentindo a guerra mais próxima do que nunca.

Uma hora após os primeiros ataques, drones sobrevoaram a casa de Anna em uma segunda onda de bombardeios, enquanto as defesas aéreas ucranianas tentavam interceptá-los. "Percebi que não conseguiria mais dormir e comecei a me preparar para o trabalho", contou.

Nos últimos dias, ônibus, postos de gasolina, escolas, escritórios governamentais e residências foram alvos de drones e bombas russas. A prefeita interina Regina Kharchenko relatou à BBC que, durante um ataque intenso, ela não se refugiou, mas acabou se escondendo no banheiro quando o barulho ficou insuportável.

Um drone Shahed caiu próximo ao escritório de Anna com um grande estrondo, e outro atingiu um cabo, derrubando a conexão de internet. "Esse é apenas mais um dia comum em Zaporizhzhia", afirmou.

A situação crítica em Zaporizhzhia

Zaporizhzhia é a capital administrativa da região homônima, uma das cinco áreas no sul e leste da Ucrânia que a Rússia reivindica como parte de seu território. A usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, está localizada a quase 50 km a sudoeste da cidade, em uma área sob ocupação russa.

Diante do aumento contínuo dos ataques, o conselho municipal se reuniu em um abrigo subterrâneo para discutir a situação alarmante. "O inimigo intensificou o terror contra civis, transporte público, ônibus particulares, veículos, prédios residenciais e até crianças", destacou Regina Kharchenko durante a reunião.

Para enfrentar a ameaça, a prefeita anunciou planos para construir mais abrigos na cidade e instalar redes anti-drones nos locais mais vulneráveis. Ela também mencionou a aplicação de filmes de proteção em janelas de escolas, hospitais e prédios públicos. "Pessoalmente, estou muito assustada", revelou. À noite, ela às vezes dorme no chão de um corredor em sua casa, um prédio comum de sete andares.

Nova tática de ataques russos

Embora as forças ucranianas tenham conseguido afastar os russos alguns quilômetros da cidade, os ataques em Zaporizhzhia se tornaram mais frequentes. Isso se deve ao uso crescente de drones FPV (primeira pessoa) que antes não conseguiam alcançar a cidade.

Sam Cranny-Evans, do Royal United Services Institute, aponta que os russos têm utilizado drones-mãe de longo alcance para liberar várias pequenas aeronaves que atingem alvos distantes. Além disso, a tecnologia de rede mesh tem sido utilizada, dificultando a interceptação das comunicações entre os drones.

As autoridades locais afirmam ter interceptado 884 drones russos apenas na última semana de junho. Apesar da retirada das tropas russas ao sul de Zaporizhzhia, elas continuam avançando em outras frentes, embora de forma mais lenta.

Os residentes, por enquanto, permanecem na cidade. Anna, por exemplo, afirma que não tem planos de deixar a região, pois possui suprimentos suficientes. "Estamos apenas tentando nos manter seguros e fazendo tudo o que podemos para sobreviver até nossa vitória", concluiu.