Um El Niño potencialmente recorde está se intensificando no Pacífico, trazendo consigo riscos de seca ou inundações em regiões agrícolas cruciais do mundo. Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), há 63% de chance de que este padrão climático seja 'muito forte' em 2026.

Enquanto isso, o banco JP Morgan alertou que a combinação do El Niño com preços do petróleo em torno de US$ 100 pode elevar a inflação alimentar em até 1,5%. A chegada desse fenômeno climático se dá em um contexto de dois grandes conflitos, na Ucrânia e no Oriente Médio, que, até o momento, mantiveram suprimentos alimentares globais relativamente estáveis.

Impactos da guerra na segurança alimentar

A guerra da Rússia na Ucrânia continua a ameaçar uma das principais regiões exportadoras de grãos do mundo, com ataques frequentes a portos e terras agrícolas. Por outro lado, o conflito no Irã elevou os preços de energia e fertilizantes, encarecendo o cultivo de alimentos em todo o mundo e causando interrupções temporárias no fornecimento de nutrientes essenciais para o solo.

O El Niño, que altera os padrões de chuva e temperatura globalmente, está previsto para ser tão forte que o Banco Mundial advertiu que a produção de arroz pode ser reduzida entre 20% e 50% nas áreas afetadas. Maximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), expressou preocupação com o 'efeito composto' que pode resultar em uma 'situação muito complexa' até o final do ano.

Produção e distribuição de alimentos em crise

Apesar das tensões geopolíticas, os preços dos alimentos permanecem cerca de 20% abaixo do pico de 2022, conforme o Índice de Preços dos Alimentos da FAO. O ano passado registrou a maior colheita de grãos da história, impulsionada por um aumento na área plantada e condições climáticas favoráveis. Embora a colheita deste ano deva ser ligeiramente menor, ela ainda será a segunda maior já registrada.

Simone Bunse, pesquisadora sênior do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), destacou as melhorias na produtividade agrícola, especialmente na Índia e na América Latina, como fatores que têm ajudado a sustentar a produção de alimentos e a reduzir a desnutrição. No entanto, a guerra continua a ser um obstáculo significativo para o controle da fome global.

Atualmente, 266 milhões de pessoas enfrentam fome aguda, com mais da metade dos casos atribuídos a conflitos. A situação é mais crítica em países como República Democrática do Congo, Sudão e Iémen, onde o acesso a suprimentos alimentares é severamente comprometido.

Além disso, o aumento dos preços dos fertilizantes, que normalmente são em grande parte transportados pelo Estreito de Ormuz, representa um risco adicional para a segurança alimentar. Com o conflito no Oriente Médio, muitos agricultores estão enfrentando dificuldades financeiras, levando a atrasos nas compras de fertilizantes e, consequentemente, a colheitas potencialmente menores.

Os especialistas alertam que, se os preços do petróleo ultrapassarem US$ 120 por barril novamente, se as exportações de grãos da Ucrânia forem bloqueadas e se o impacto do El Niño se intensificar, a fome global pode aumentar significativamente. A previsão é de que a inflação alimentar ultrapasse 5% em 2027, com os mercados emergentes sendo os mais afetados.