A escassez de fertilizantes e o fenômeno climático El Niño podem pressionar os preços de alimentos essenciais no Brasil, como arroz, laranja, café e trigo, alertam especialistas. A dificuldade no transporte de insumos e o aumento nos custos têm levado agricultores a reduzir a adubação nesta safra.
O Oriente Médio, que é o quarto maior fornecedor de fertilizantes para o Brasil, enfrenta instabilidades no fluxo de transporte desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã. Essa região é crucial para o mercado de fertilizantes, sendo responsável por mais de 40% das exportações globais de ureia e uma parte significativa da amônia e do enxofre, conforme dados da Consultoria Agro do Itaú BBA.
De acordo com os especialistas, a interrupção nas rotas de transporte durante a guerra resultou em uma alta nos preços e dificultou o acesso dos produtores a esses insumos. A escassez de petróleo também está gerando uma falta de enxofre, que é utilizado na produção de fertilizantes fosfatados, dos quais o Brasil importa 80% do que consome. Entre janeiro e maio deste ano, o país registrou uma queda de 45% nas importações desse produto em comparação ao mesmo período do ano anterior.
Impactos na produção agrícola
A situação tem levado indústrias de fertilizantes, como a Mosaic, uma das maiores do setor, a reduzir sua produção. Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, explica que a falta de adubação adequada pode resultar em queda na produtividade das lavouras, afetando a quantidade e a qualidade dos produtos disponíveis no mercado e, por consequência, elevando os preços.
Embora a falta de fertilizantes não cause um impacto imediato, ela se soma a outros desafios enfrentados pelos agricultores, que incluem um forte El Niño em 2023. Esse fenômeno climático pode provocar secas e chuvas irregulares nas regiões produtivas, complicando ainda mais o cenário agrícola.
Desafios financeiros e acesso ao crédito
Bruno Fonseca, analista do Rabobank, destaca que o aumento dos custos de produção, em um momento em que muitos agricultores já enfrentam endividamento, é um dos principais efeitos da alta nos preços dos fertilizantes. Ele observa que muitos produtores têm dificuldades para acessar crédito e podem reduzir a aplicação de adubos.
Wharlhey Nunes, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, aponta que grandes produtores têm mais recursos e tecnologia para mitigar os impactos, enquanto agricultores menores, que dependem do mercado local e não têm acesso facilitado ao crédito, devem ser mais afetados. Isso é especialmente preocupante para culturas menos rentáveis, como trigo, café, laranja e arroz.
Além disso, Serigati ressalta que a logística pode ser um obstáculo para a chegada dos fertilizantes a regiões mais distantes, como Rondônia, onde o transporte ocorre principalmente pelos portos do Sul do país. Embora a redução do uso de fertilizantes possa ser menor se as chuvas ocorrerem em períodos adequados, a incerteza trazida pelo El Niño pode complicar essa situação.
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