Em um evento inusitado, a linguagem da juventude indiana, especialmente a gíria da Gen Z, tomou conta do parlamento do país durante debates sobre um novo projeto de lei contra vazamentos de exames. O fato ocorre após uma série de protestos liderados pelo movimento Cockroach Janta Party (CJP), que resultou na renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan.

Na terça-feira, enquanto os parlamentares discutiam a proposta, expressões como "delulu" e "FOMO" (medo de ficar de fora) ressoaram pela Lok Sabha, a câmara baixa do parlamento. O deputado Shrikant Shinde, do partido Shiv Sena, criticou a oposição por estar "MIA" (missing in action), enquanto Deepender Singh Hooda, líder do Congresso, fez referência a uma frase viral do protesto, "waste-guna-huiya", para ironizar o governo.

Protesto digital e suas consequências

O CJP, que começou como um coletivo satírico na internet, rapidamente se transformou em um símbolo de insatisfação em relação ao desemprego e à indiferença política, atraindo a atenção de milhares de jovens. A organização dos protestos se deu principalmente através de WhatsApp, Telegram e Instagram, onde memes e vídeos rapidamente se tornaram virais, levando mais jovens às ruas.

A resposta do governo também se adaptou a essas plataformas, com o primeiro-ministro Narendra Modi utilizando vídeos estilo selfie para se conectar com o público jovem. Embora os parlamentares tenham adotado a gíria da Gen Z durante as discussões, especialistas alertam que isso não necessariamente indica uma mudança política significativa, mas sim uma tentativa de se conectar com o eleitorado.

Desafios e críticas ao uso da gíria

A adoção de gírias pela classe política gerou reações mistas. Enquanto alguns acreditam que isso demonstra uma compreensão da nova geração, outros argumentam que é uma tentativa superficial de engajamento. A antropóloga digital Payal Arora destacou que a linguagem é uma das primeiras coisas que a política toma emprestada ao tentar se conectar com novos grupos, mas que a adoção de termos da Gen Z não resolve os problemas que geraram tais expressões.

Após o término dos protestos, o governo demonstrou inquietação diante do legado digital do movimento, buscando a remoção de conteúdos relacionados e tomando medidas contra estudantes e ativistas. Os líderes do CJP acusam o governo de tentar intimidar os manifestantes e exigem a retirada de ações legais como condição para evitar novas mobilizações.

Os críticos do movimento questionam se o uso de humor e memes diminui a seriedade da luta por melhorias no sistema educacional. No entanto, apoiadores defendem que a ironia é uma parte essencial da comunicação de uma geração que cresceu online. A eficácia da nova linguagem no parlamento, e sua durabilidade, ainda está em questão, dado que a gíria da internet é volátil e muda rapidamente.