Escrevemos para quê? E para quem? 23 de julho de 2026, 8h00 Há perguntas que precedem todas as outras.

Esta é uma delas: por que escrevemos? E, antes que alguém responda apressadamente, acrescento: para quem escrevemos? Estes tempos de instantaneidades merecem uma reflexão sobre isso.

Parece até uma indagação banal. Não é. Vivemos o paradoxo de uma época em que nunca se escreveu tanto e, talvez exatamente por isso, nunca tenha sido tão difícil encontrar um texto que permaneça na memória depois de terminada a leitura.

Escreve-se muito. Publica-se mais ainda. Opina-se sobre tudo.

Mas será que pensamos na mesma proporção? Há uma diferença entre produzir informação e produzir compreensão. A informação é instantânea.

A compreensão é lenta. A informação ocupa espaço. A compreensão exige espaço.

A informação satisfaz a curiosidade. A compreensão inquieta. Angustia.

É justamente essa inquietação que parece estar desaparecendo. Criou-se uma curiosa economia da atenção. E economia de palavras.

Tempos de atalhos. O valor de um texto já não está naquilo que ele revela, mas no tempo que consegue capturar do leitor. Mas o leitor já não se ajuda.

Sem figurinha ou TikTok ou alguma ofensa a alguém, a tarefa de captura e permanência tende a fracassar. A lógica da circulação substituiu a lógica da reflexão. Importa menos o que se diz do que o alcance do que foi dito.

O escriba pode até dar a solução para determinado problema. Pode abordar um tema fundamental até mesmo para a democracia. Para o Judiciário.

Para o sistema de Justiça. Mas a plateia prefere um vídeo de 30 segundos, com anúncios de “grande sacada”. Quanto mais platitude, mais aplausos.

Como se o critério de verdade tivesse sido silenciosamente substituído pelo critério da visibilidade. E isso não é uma questão tecnológica. É um problema cultural.

A tecnologia apenas potencializou algo mais profundo: a transformação do conhecimento em mercadoria de consumo rápido. Cognição líquida. O pensamento passou a disputar espaço com estímulos que, por definição, não desejam ser pensados.

Querem apenas ser consumidos. Alunos viraram consumidores. E o ensino virou produto.

É nisso que mora o perigo Não é que o joio cresça ao lado do trigo. Sempre cresceu. O problema contemporâneo é outro: há tanto joio que já não conseguimos enxergar o trigo.

E, pior, acostumamo-nos com o joio. Naturalizamos a substituição do essencial pelo acessório. Talvez essa seja uma das formas mais sofisticadas de empobrecimento intelectual e do triunfo da agnotologia: deixar de sentir falta do que importa.

É se deixar envolver pelo trivial. Pelo secundário. Algo como se em um grupo de médicos o que menos importasse fosse a discussão sobre saúde e corpo humano.

Passamos a celebrar o resumo antes da obra, o comentário antes da leitura, a conclusão antes da investigação. Como se compreender fosse um detalhe dispensável diante da necessidade permanente de emitir opiniões. Eis o triunfo do opinionismo — e aqui remeto o leitor a MacIntyre e seu Depois da Virtude.

Não deixa de ser curioso. Nunca houve tanto acesso ao saber e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em distinguir conhecimento de mera acumulação de dados. O Brasil é o país em que há mais smartphones per capita.