Com a Europa enfrentando ondas de calor cada vez mais severas, especialistas afirmam que o continente deve considerar as lições aprendidas por comunidades africanas que há décadas se adaptam às condições climáticas extremas. A questão não é mais se os países ricos precisam se adaptar, mas sim se estão dispostos a aprender com aqueles que já enfrentam a instabilidade climática.

As temperaturas recordes na Europa estão sobrecarregando hospitais, interrompendo transportes e transformando espaços públicos em riscos à saúde. Países como Reino Unido, França, Espanha, Itália, Alemanha e regiões dos Bálcãs estão apenas começando a entender o impacto social, econômico e político das mudanças climáticas em sua realidade cotidiana.

Experiências africanas como referência

Em contraste, diversas comunidades africanas convivem com o aumento das temperaturas, chuvas irregulares, secas e infraestrutura pública frágil há gerações. Essas comunidades desenvolveram métodos de adaptação em condições limitadas, frequentemente sem o financiamento e os sistemas de recuperação disponíveis para países mais ricos. O continente apresenta abordagens comportamentais, arquitetônicas, tecnológicas e institucionais que podem servir como lições importantes para uma Europa em aquecimento rápido.

É importante ressaltar que não existem soluções universais. A adaptação climática não se resume a transplantar práticas; uma solução pensada para Ouagadougou precisaria ser adaptada para funcionar em Marseille ou Madrid. Fatores como geografia local, códigos de construção, cultura e governança desempenham um papel crucial. No entanto, as estratégias subjacentes e a expertise adquirida podem ser aplicadas em contextos variados.

Inovações que podem ser aplicadas na Europa

A arquitetura é um exemplo. Em diversas regiões da África Ocidental, arquitetos como Francis Kere têm desenvolvido designs de construção sustentáveis, utilizando técnicas indígenas, como telhados refletivos e paredes grossas feitas de materiais locais. Esses princípios de design, que priorizam a ventilação natural e reduzem a dependência de ar-condicionado, são especialmente relevantes para cidades europeias que enfrentam uma infraestrutura envelhecida e redes de energia sobrecarregadas.

Além disso, inovações urbanas têm se destacado em cidades africanas. O programa “Freetown the Tree Town”, na capital da Serra Leoa, é um exemplo de iniciativa de arborização urbana que visa mitigar o efeito de ilhas de calor nas cidades, financiada pelo mercado de créditos de carbono. Essa experiência é diretamente aplicável a muitas cidades europeias que carecem de áreas verdes.

Além disso, respostas comunitárias à saúde têm demonstrado como programas de adaptação ao calor podem ser eficazes. Em Burkina Faso, um sistema nacional de alerta para ondas de calor promove a hidratação e ajuda os cidadãos a gerenciar a exposição ao calor, com visitas domiciliares a residentes vulneráveis. Essa abordagem poderia beneficiar populações europeias expostas, como idosos que vivem sozinhos e trabalhadores ao ar livre.

A adaptação climática deve ser vista como uma inovação, e não apenas como uma resposta a crises. Se o financiamento para adaptação tivesse sido considerado uma prioridade nas ações climáticas, muitas dessas soluções estariam melhor documentadas e posicionadas para aprendizado global. A necessidade de cooperação entre o Norte e o Sul deve ser mútua, com a Europa não apenas compartilhando ciência, tecnologia e financiamento, mas também aprendendo com as práticas de adaptação africanas.