Junto com o jornalismo político, o cinema é uma das grandes paixões da minha vida. Ver histórias contadas na pequena ou na grande tela, acompanhadas de trilhas sonoras marcantes, atuações memoráveis e desfechos surpreendentes, para quem compartilha dessa paixão, vai muito além de um mero hobby. Afinal, o cinema foi, é e provavelmente sempre será uma das grandes ferramentas da arte para refletir a nossa própria época, registrar os conflitos do seu tempo e oferecer, quadro a quadro, um espelho da sociedade.
E, ao ir ao cinema, tenho um critério inegociável: preciso estar na sala a tempo dos trailers. Explico. É preciso de um certo tempo, uma espécie de introdução sensorial para a história que será narrada na telona, e os trailers cumprem exatamente esse papel.
São eles que ajustam as expectativas, estabelecem o tom e preparam o espectador para aquilo que está por vir. Repare, caro leitor, que as pequenas prévias exibidas antes do filme principal normalmente pertencem ao mesmo gênero da obra que você escolheu assistir. Se o filme é de terror, muito provavelmente você verá trailers de suspense e histórias capazes de provocar arrepios.
Se for uma comédia, os minutos que antecedem a sessão serão preenchidos por piadas e risadas. Em outras palavras, você inicia o filme já emocionalmente ambientado pelas prévias, quase como se estivesse assistindo ao primeiro ato de uma narrativa maior. Não é diferente na vida real.
Aliás, parece que até nisso a arte imita a vida, ou vice-versa. Enfim, esse é um debate para outra coluna. A política, especialmente a brasileira, parece ter aprendido muito bem a linguagem do cinema: personagens cuidadosamente construídos, roteiros revisados conforme a reação da plateia e campanhas que, por vezes, mais se assemelham a grandes produções de marketing do que a projetos de governo.
Flávio Bolsonaro, que hoje é chamado por tantos títulos e alcunhas, senador, pré-candidato à Presidência da República, filho “01” de Jair Bolsonaro e até “irmão” de Daniel Vorcaro, parece compartilhar, ao menos indiretamente, dessa admiração pela sétima arte. Não à toa, é conduzida pelo próprio clã bolsonarista a produção do famigerado “Dark Horse”, filme que pretende retratar um dos episódios mais marcantes da trajetória política de Jair Bolsonaro, quando o então candidato ao Planalto foi alvo de um atentado que quase lhe custou a vida. A questão é que Flávio, como mencionado, foi escolhido pelo pai para tentar trilhar o caminho até o Planalto e se tornar o próximo presidente do Brasil.
Diz-se que os Bolsonaros não confiam em absolutamente ninguém que não tenha o mesmo sangue ou sobrenome. Aliás, eles parecem nutrir desconfianças e ressentimentos até mesmo entre si. Flávio, Carlos, Eduardo e Michelle que o digam.
Flávio sabia que precisava seguir os passos do pai para manter cativo o eleitorado da direita bolsonarista. Por isso, intensificou o tom dos ataques ao PT e à esquerda. Ao mesmo tempo, o senador também compreendeu que não poderia repetir, ao menos de imediato, os mesmos excessos de Jair, sob pena de afastar o Centrão e os eleitores de centro e centro-direita.
Os sinais de que seria um “Bolsonaro mais equilibrado” começaram a surgir tão logo seu nome passou a ser tratado como o principal candidato do grupo.
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