Por que sentimos necessidade de ouvir músicas tristes quando já estamos tristes? Não importa o gênero musical. Frases que relatam saudades, sofrência e recaídas estão na maioria das faixas que aparecem na lista das 50 músicas mais ouvidas no Brasil no streaming no primeiro semestre de 2026.

O sertanejo de "dor de cotovelo", o trap melódico e as baladas pop confessionais mostram que o brasileiro adora sofrer acompanhado de uma faixa melancólica. Versos como: "Meu amor, por favor, fala que você também não me esqueceu" (trecho de "Apaga Apaga Apaga", de Danilo e Davi)... ...ou "O que eu mais queria era ficar contigo, mas você deixou meu coração partido" (trecho de "Coração Partido", do Menos é Mais)...

... e ainda "Ela foi embora, eu sofri muito, foi difícil ter o ponto final" (trecho de "Carnívoro", de MC Jacaré com MC Lele JP e MC Negão Original)... ...são alguns exemplos do sofrimento do eu lírico das canções mais ouvidas pelo brasileiro neste primeiro semestre.

Os personagens destas músicas estão tristes, arrependidos e/ou sofrendo. E isso pode ser o reflexo do que o ouvinte está sentindo, já que é bastante comum a busca de músicas tristes quando estamos tristes. Mas por que isso acontece?

"Pode parecer estranho, mas quando a gente está triste, nem sempre a gente quer que alguém nos retire da tristeza. Muitas vezes, antes de a gente conseguir fazer isso, a gente precisa se sentir compreendido dentro daquilo que a gente tá vivendo", explica Pamela Magalhães, Psicóloga Terapeuta de Casal e Família e apresentadora do podcast Parece Terapia. "E a música melancólica, triste, tende a funcionar como uma espécie de parceiro, companheiro emocional.

Porque a música dá palavras, significado para aquilo que a gente ainda não consegue nomear, e que está permeando a nossa mente e ocupando o nosso coração. É como se a letra dissesse: 'eu sei como isso dói'." Por que sentimos necessidade de ouvir músicas tristes quando já estamos tristes? Ivan S/Pexels Para a psicóloga, por trás deste comportamento está uma necessidade humana primária de buscar representação para que a dor deixe de ser solitária.

Ela explica que, quando a gente escuta uma música que traduz exatamente o nosso estado emocional, a gente experimenta a sensação de validação e de pertencimento. Até por isso muitas pessoas costumam dizer: "Essa música foi feita pra mim." Claro que, com as raríssimas exceções de pessoas que realmente foram homenageadas pelos compositores, a música não foi feita diretamente para aquele ouvinte. Mas algo íntimo e universal foi atingido dentro dele, fazendo com que ele sinta que, finalmente, alguém conseguiu traduzir sua experiência.

"E não significa necessariamente que a gente deseje sofrer mais. Significa que a gente encontrou um lugar seguro para sentir o que talvez estivesse tentando evitar, escondendo ou até sem conseguir explicar racionalmente, através da lógica." "A música abre uma porta que permite a emoção entrar e sair. Por isso, muitas pessoas choram ouvindo música e depois sentem essa espécie de alívio.

O choro não é necessariamente um sinal de piora." "Há momentos em que a música não nos tira do fundo do poço, mas se senta ao nosso lado.