Durante a cúpula da Otan, realizada na Turquia, Donald Trump caracterizou o Irã como "pessoas más e doentes" e os rotulou de "jogadores sujos" devido a ataques a embarcações comerciais no Estreito de Ormuz. As declarações ocorrem em um momento crítico, com indícios de que o acordo preliminar entre Washington e Teerã está prestes a desmoronar.

O analista de relações internacionais da CNN, Lourival Sant'Anna, avaliou a situação com cautela, afirmando que não se espera uma escalada imediata para um conflito armado total. "O nosso cenário base sempre foi uma normalização lenta, gradual e sob estresse contínuo", disse Sant'Anna. Ele destacou que tanto os Estados Unidos quanto o Irã têm motivos políticos e econômicos que os levam a buscar essa normalização.

Limitações militares e impasse no Estreito de Ormuz

Sant'Anna explicou que o objetivo da ofensiva americana é diminuir a capacidade do Irã de atacar navios que navegam pelas rotas marítimas. No entanto, essa capacidade de ação é limitada, pois os Estados Unidos não têm condições políticas para enviar tropas às áreas costeiras do Irã, onde se encontram mísseis e drones utilizados em tais ataques. "Haveria uma grande morte de soldados americanos e isso politicamente é insustentável", afirmou.

Por outro lado, o Irã busca estabelecer um status quo no Estreito de Ormuz que é considerado inaceitável tanto pelos Estados Unidos quanto pela comunidade internacional. Segundo Sant'Anna, existe uma negociação sendo conduzida por meio da força, na qual Washington tenta diminuir as exigências de Teerã sobre o controle da passagem marítima. "O Irã tem alta tolerância à dor e tem a geografia a seu favor", enfatizou.

Impacto eleitoral para os republicanos

O analista qualificou a situação como "politicamente desastrosa" para os republicanos, pois afeta dois pontos fundamentais. O primeiro é a pressão sobre os preços do petróleo e de outras commodities que circulam pelo Estreito de Ormuz, elevando a inflação e o custo de vida nos Estados Unidos, um tema central nas eleições recentes.

O segundo ponto é o descumprimento de uma promessa de campanha. Desde 2016, Trump construiu sua trajetória política em torno do compromisso de evitar envolvimentos em guerras distantes e mudanças de regime, especialmente no Oriente Médio. "Há um descontentamento imenso, não só na população americana, mas também dentro do Partido Republicano", ressaltou Sant'Anna.

O analista concluiu que Trump enfrenta dificuldades para sair da situação de maneira honrosa, uma vez que o Irã só está disposto a desbloquear o estreito sob suas próprias condições, o que continua sendo inaceitável para os Estados Unidos.