O Unaids (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids) emitiu um alerta sobre o risco de ressurgimento da epidemia global de HIV. O aviso foi publicado no relatório especial “Unidas e Unidos para acabar com a aids”, divulgado durante a 26ª Conferência Internacional de aids, ocorrida no Rio de Janeiro.

Segundo o documento, a combinação de cortes no financiamento internacional, a diminuição dos serviços comunitários e as dificuldades de acesso à prevenção podem comprometer décadas de avanços no combate ao HIV. O Unaids enfatiza que o objetivo de erradicar a aids como uma ameaça à saúde pública até 2030 está em perigo caso não haja uma recuperação dos investimentos necessários.

Em 2025, o mundo registrou 1,2 milhão de novas infecções por HIV e 570.000 mortes relacionadas à aids. Apesar de representar os menores índices em 30 anos, a agência alerta que a resposta global enfrenta fragilidades.

O relatório também destaca um momento histórico no desenvolvimento de medicamentos preventivos contra o HIV, com novas tecnologias que oferecem proteção comparável à de vacinas. Entre os avanços estão medicamentos injetáveis de aplicação mensal e semestrais, além de comprimidos de uso mensal que estão em fase avançada de testes.

No entanto, o Unaids destaca a situação crítica dos recursos destinados ao combate ao HIV. A assistência oficial ao desenvolvimento sofreu um colapso em 2025, com uma queda de 23% na ajuda internacional.

Os fundos internacionais específicos para o HIV caíram de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, o que representa uma redução de 18%, o menor nível em quase 20 anos. Essa diminuição afeta especialmente os países africanos de baixa renda, que dependem de recursos externos para financiar mais de 90% de suas ações contra a epidemia.

O relatório menciona que, em 2024, organizações comunitárias receberam até 25% da assistência internacional destinada ao HIV, alcançando 22% das pessoas vivendo com HIV em alguns países. Sem novos investimentos, esses serviços estão à beira do colapso.

A diretora-executiva do Unaids, Winnie Byanyima, destacou a necessidade de os governos aumentarem seus investimentos internos para compensar a redução da ajuda externa. Ela afirmou: “A era de depender da ajuda internacional acabou. Os países não podem esperar e não podem retroceder.”

Cenário no Brasil

O Brasil é mencionado no relatório como um dos países que ampliaram o acesso à prevenção medicamentosa, com um aumento de 41% no número de pessoas que utilizaram medicamentos preventivos contra o HIV pelo menos uma vez no último ano. No entanto, o país não recebeu da fabricante Gilead uma licença voluntária para o lenacapavir, um medicamento injetável semestral que poderia reduzir custos. O Brasil avalia a possibilidade de recorrer ao licenciamento compulsório.

Uma iniciativa da Unitaid, do Fundo Global de Combate à aids, Tuberculose e Malária, visa implementar o lenacapavir, com a meta de alcançar 3 milhões de pessoas até 2028. Contudo, o Unaids ressalta que esse número é apenas uma fração das 20 milhões de pessoas que precisam de acesso à prevenção para reduzir novas infecções de forma significativa.

Progresso entre países

Os avanços no combate ao HIV variam amplamente entre os países. Sete nações conseguiram reduzir em quase 80% o número de novas infecções desde 2010, enquanto 11 países atingiram as metas internacionais de tratamento conhecidas como 95-95-95. Por outro lado, o progresso desacelerou ou retrocedeu em diversas regiões.

O relatório apresenta dados preocupantes, como o aumento das novas infecções em três regiões do mundo e o crescimento de casos em 21 países. Aproximadamente 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não estão em tratamento, e quase metade das crianças nessa condição não teve acesso à terapia antirretroviral. Para o Unaids, esses números evidenciam a importância da continuidade dos investimentos e da ampliação do acesso aos serviços.

Winnie Byanyima afirmou que a inovação tecnológica deve ser acompanhada de acesso amplo, ressaltando que “avanços científicos estão nos dando ferramentas que as gerações anteriores só podiam sonhar.”