A partir de 22 de julho, o Brasil passará a ter a maior tarifa média aplicada pelos Estados Unidos entre os países da América do Sul, conforme novas taxas impostas por Donald Trump. Essa informação é do Global Trade Alert (GTA), uma iniciativa do St. Gallen Endowment, que compila dados sobre comércio global.

No momento, o Brasil e o Uruguai estão empatados com uma tarifa efetiva média de 11,66%, enquanto o Paraguai lidera com 12,92%. Com a implementação do novo tarifaço, a tarifa de importação do Brasil aumentará para 18,17%. Essa taxa, segundo o GTA, considera o peso de cada produto na pauta exportadora, além das exceções nas novas regras, diferindo da alíquota de 25% anunciada por Trump.

Motivos para o aumento das tarifas

Especialistas apontam que o Brasil se tornou um alvo preferencial da política tarifária americana por uma combinação de fatores políticos, econômicos, estratégicos e diplomáticos. Carlos Pio, ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior do Ministério da Economia e professor da Universidade de Brasília (UnB), destaca que a tarifa reflete uma mudança na doutrina comercial de Trump, que agora prioriza proteger setores industriais e favorecer alianças políticas.

Pio argumenta que o Brasil é visto como um alvo devido a uma economia relativamente fechada e ao desalinhamento ideológico com o governo Trump, que se intensificou durante a administração Bolsonaro. Ele compara a situação do Brasil com a da Argentina, que também adota uma postura protecionista, mas sob a liderança de Javier Milei, que possui uma relação diferente com os EUA.

Disputa entre EUA e China

Jan Marcel, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ressalta a importância do Brasil na economia latino-americana e sua relação comercial significativa com os Estados Unidos. O país se destaca em produtos de maior valor agregado, como aeronaves e petróleo. Além disso, a relação comercial forte do Brasil com a China coloca o país no centro da disputa de influência entre as duas potências.

Celso Figueiredo, advogado especialista em comércio internacional e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), observa que as tarifas comerciais de Trump têm se transformado em instrumentos de pressão política. Ele destaca que a taxação elevada contra o Brasil não é uma situação definitiva, uma vez que uma investigação contra 60 países, incluindo o Brasil, está em andamento para apurar vantagens competitivas obtidas por meio de trabalho forçado.

Após o anúncio das novas tarifas, o governo brasileiro classificou a situação como um "marco lastimável" nas relações bilaterais, argumentando que não há justificativas para medidas unilaterais. Uma fonte da Casa Branca indicou que retaliações brasileiras poderiam levar a uma modificação na abordagem dos EUA, mas especialistas acreditam que uma escalada não é o cenário mais provável, com a diplomacia como principal caminho a ser seguido.