Um estudo conduzido por Solène Morelle, doutoranda da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, revela que o aumento da temperatura pode alterar o comportamento sexual de besouros da espécie Nicrophorus vespilloides. Durante três dias em laboratório, os insetos foram submetidos a uma onda de calor simulada, onde a temperatura foi elevada de 20°C para 26°C. Os pesquisadores observaram um aumento significativo nas interações de caráter sexual entre machos, que passaram a ocorrer com maior frequência.
Impacto do calor nas interações entre os besouros
Segundo Morelle, o aumento nas interações sexuais sob temperaturas elevadas não deve ser interpretado como uma mudança de preferência sexual. A hipótese mais aceita é que o calor afetou os sinais químicos que os besouros usam para identificar o sexo de outros indivíduos. Com a comunicação menos clara, os machos podem ter confundido outros machos com fêmeas potenciais.
O estudo, apresentado na conferência da Sociedade de Biologia Experimental em Florença, na Itália, revela que, em condições normais, a média de interações entre machos era de pouco mais de um episódio por dupla a 20°C, quase dobrando para cerca de dois episódios sob temperatura mais alta. “O que observamos foi um aumento na frequência de interações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo sob temperaturas elevadas”, afirmou Morelle.
Comunicação química e suas implicações
Os besouros Nicrophorus vespilloides são conhecidos por enterrar carcaças de pequenos animais, como aves e roedores, que servem de alimento para suas larvas. Machos e fêmeas cooperam na preparação do alimento e na proteção do local contra outros besouros, dependendo de uma comunicação química que ocorre na superfície do corpo. Sob temperaturas elevadas, essa camada protetora pode ser alterada, dificultando o reconhecimento entre os indivíduos.
Morelle destaca que, embora a pesquisa tenha mostrado alterações no comportamento, a relação entre o calor e a atração sexual ainda não foi comprovada. A pesquisadora adverte que é inadequado aplicar categorias humanas ao comportamento dos besouros. “Minha hipótese de trabalho é que isso reflita um prejuízo no reconhecimento sexual, e não uma mudança na preferência por parceiros”, explicou.
Outro achado interessante foi a frequência das interações entre machos mesmo em temperaturas normais. A maioria das duplas observadas a 20°C teve pelo menos um episódio de interação. O estudo também registrou mais interações recíprocas sob calor, onde os machos alternavam os papéis, embora o significado dessa descoberta ainda não esteja claro.
A próxima fase da pesquisa buscará entender se o aumento das interações entre machos impacta o contato com fêmeas e, consequentemente, a reprodução. Morelle alerta que a confusão entre parceiros e rivais pode ter sérias consequências, uma vez que outros machos podem tentar tomar a carcaça e prejudicar as larvas. “Com apenas esse resultado, ainda podemos somente especular sobre as consequências para a reprodução e para a saúde das populações”, conclui a pesquisadora.
Comentários (0)
Entre ou cadastre-se para comentar.