Uma nova pesquisa sugere que a aplicação de uma única injeção pode reduzir consideravelmente o risco de erros cromossômicos em óvulos humanos, um problema comum que pode levar a abortos espontâneos, falhas em fertilização in vitro (FIV) e condições genéticas como a síndrome de Down. A descoberta é especialmente relevante para mulheres mais velhas que buscam tratamento de FIV.

Segundo Marcos Iuri Roos Kulmann, especialista em Medicina Reprodutiva em Porto Alegre, Brasil, que não participou do estudo, essa abordagem representa um avanço significativo. "Para o meu conhecimento, esta é a primeira terapia a mostrar tal potencial clínico para corrigir essa grande causa de falhas na FIV", afirmou.

Entendendo a aneuploidia e suas consequências

Durante o processo de meiose, as células de óvulos e espermatozoides devem eliminar exatamente metade de seu material genético. Quando a fertilização ocorre, o óvulo e o espermatozoide se combinam, formando um embrião com um genoma completo. No entanto, em alguns casos, as células de óvulos ou espermatozoides podem ter mais ou menos do que a metade do genoma necessário, uma condição conhecida como aneuploidia.

A aneuploidia afeta cerca de 10% a 25% dos óvulos em mulheres na faixa dos 30 anos, e sua incidência aumenta com a idade. Agata Zielinska, da Ovo Labs, uma empresa de biotecnologia na Alemanha, destacou durante a conferência da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia, em Londres, que mais de 65% dos óvulos são aneuplóides em mulheres com mais de 35 anos.

Resultados promissores da pesquisa

Os pesquisadores observaram que a proteína shugoshin-1, que desempenha um papel crucial na manutenção da união dos pares de cromossomos durante a meiose, está em níveis substancialmente mais baixos em óvulos de mulheres mais velhas. Para investigar se a reposição dessa proteína poderia prevenir a aneuploidia, os cientistas coletaram 111 óvulos imaturos de mais de 30 mulheres com idades entre 22 e 43 anos.

Os cientistas injetaram o código genético da shugoshin-1, na forma de mRNA, em alguns dos óvulos e deixaram outros sem tratamento. Os resultados mostraram que, algumas horas após a injeção, 53% dos óvulos não tratados apresentaram separação prematura dos cromossomos, enquanto essa taxa caiu para 29% nos óvulos tratados. Em óvulos de nove doadoras com mais de 35 anos, a taxa média de aneuploidia foi de 65% nos óvulos não tratados, comparada a 44% nos tratados.

Embora essa redução não tenha sido estatisticamente significativa, os pesquisadores sugerem que isso pode estar relacionado ao pequeno tamanho da amostra. Experimentos adicionais demonstraram que a abordagem também pode prevenir a aneuploidia em óvulos de camundongos, que foram fertilizados com sucesso, resultando em descendentes saudáveis.