Teerã, Irã – O sistema elétrico em colapso, afetado por ataques militares recentes e falta crônica de investimentos, tem deixado os iranianos enfrentando apagões em meio a uma severa onda de calor. Estudantes da Universidade Sharif de Tecnologia, Kamran e Moein, presenciaram a frustração de um vendedor de sorvetes que perdeu 180 kg de mercadorias devido a cortes de energia, um vídeo viral que reflete a indignação coletiva.
Kamran, de 22 anos, relatou que as interrupções de energia afetaram os exames finais da sua universidade, resultando no adiamento de 38 provas. “Os apagões desestabilizaram todos os nossos planos”, disse ele. “Você estuda a noite inteira, mas pode acordar e descobrir que tudo foi cancelado por causa de cortes de eletricidade.” Para Moein, de 24 anos, a situação é ainda mais crítica. “Pergunte aos pacientes que dependem de ventiladores em casa ou aqueles que armazenam medicamentos vitais na geladeira. Para eles, um apagão não é apenas um exame adiado; é uma questão de vida ou morte.”
Promessas não cumpridas e infraestrutura danificada
A crise energética no Irã contradiz diversas promessas oficiais. Poucos dias antes do início da guerra entre Estados Unidos e Israel em fevereiro, o presidente Masoud Pezeshkian e o ministro de Energia, Abbas Aliabadi, haviam garantido um verão sem interrupções elétricas. Essas promessas se desvaneceram durante uma onda de calor severa e ataques militares renovados, transformando apagões esporádicos em uma realidade diária.
Em resposta a perguntas sobre os cortes de energia não anunciados, o presidente do Conselho da Cidade de Teerã, Mehdi Chamran, afirmou: “Se você soubesse quantas instalações elétricas foram bombardeadas há dois dias, não teria feito essa pergunta.” O CEO da companhia nacional de eletricidade, Mohammad Allahdad, confirmou a gravidade da situação, mencionando uma queda de 4.200 megawatts na capacidade da rede e danos em mais de 2.000 pontos da infraestrutura elétrica.
A paralisia industrial e suas consequências
Bahman Arman, professor de economia da Universidade de Teerã, destacou um paradoxo: apesar de grandes consumidores de eletricidade estarem fora de operação, a escassez persiste. A empresa Mobarakeh Steel, por exemplo, parou de consumir energia após ser atingida por ataques aéreos conjuntos dos EUA e Israel, o que deveria ter contribuído com 2.000 megawatts à rede nacional, mas a complexidade petroquímica de Mahshahr, também bombardeada, passou a depender da rede.
Embora a produção hidrelétrica tenha aumentado devido a chuvas, a falta de investimentos continua a ser o principal problema. Arman afirmou que “a guerra foi apenas a gota d'água” em um sistema com linhas de transmissão antigas e incapacidade de construir novas usinas. O ex-presidente da Câmara de Comércio do Irã, Hossein Selahvarzi, alertou que as zonas industriais enfrentam apagões de quatro a seis horas diárias, cortando a produção e elevando custos.
Com a escassez de gás no inverno já sendo uma ameaça recorrente, os próximos meses prometem ser desafiadores para os proprietários de fábricas, que lutam para se recuperar das perdas causadas pela guerra. Para os iranianos, a pergunta que ecoa nas ruas escuras é: até quando suportarão uma crise em que os efeitos da guerra se encontram com uma infraestrutura em degradação e sem soluções rápidas à vista?
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