A Organização Mundial da Saúde (OMS) deu início, nesta terça-feira, ao primeiro ensaio clínico para avaliar a eficácia de um antiviral na prevenção de infecções pelo vírus Bundibugyo na República Democrática do Congo, em meio a um surto que se espalha rapidamente e foge aos esforços de resposta.

O estudo, denominado EBO-PEP, visa testar o antiviral obeldesivir em pessoas que tiveram contato com casos confirmados do vírus. O medicamento experimental, desenvolvido pela empresa farmacêutica americana Gilead Sciences, demonstrou eficácia em modelos pré-clínicos contra vírus da família dos filovírus, que causam febres hemorrágicas.

Contexto do surto de Ebola

Atualmente, não existem vacinas ou tratamentos aprovados para a cepa Bundibugyo do Ebola. Segundo os últimos dados oficiais da República Democrática do Congo, essa rara espécie de Ebola já infectou mais de 1.960 pessoas, resultando em mais de 700 mortes. O surto foi declarado em 15 de maio, após a ocorrência de várias mortes na província de Ituri, que é rica em minerais e enfrenta a presença de grupos armados.

Os casos de Ebola, que se espalha através do contato próximo e fluidos corporais infectados, foram identificados em cinco províncias do Congo e também em Uganda. Contudo, mais de 90% das infecções continuam a ser registradas em Ituri.

Recrutamento e monitoramento dos participantes

Os primeiros pacientes para o ensaio do obeldesivir estão sendo recrutados em centros de profilaxia pós-exposição (PEP) estabelecidos nas proximidades dos centros de tratamento de Ebola operados pela ONG Aliança para Ação Médica Internacional (ALIMA) em Bunia e Rwampara, na província de Ituri. O estudo pretende recrutar cerca de 1.000 participantes com idade a partir de 12 anos que tiveram contato direto com um caso confirmado nos cinco dias anteriores, mas que não apresentam sintomas.

Cada participante será monitorado diariamente durante 21 dias, com uma visita final programada para 42 dias após o início do ensaio.

Preocupações com a disseminação do vírus

Em uma declaração feita na mesma terça-feira, a OMS alertou que o surto de Bundibugyo na República Democrática do Congo pode ser de duas a quatro vezes maior do que os números oficiais indicam. O chefe de emergências da OMS, Chikwe Ihekweazu, que retornou de Bunia, informou que 80% dos novos casos estão fora das listas de contatos conhecidos e provêm de "cadeias de transmissão desconhecidas". Ele expressou preocupação com o fato de que muitos dos novos casos relatados são de pessoas que faleceram sem ter chegado a uma unidade de saúde.

Um ensaio clínico para testar dois tratamentos potenciais para pacientes com Bundibugyo teve início em Ituri no dia 2 de julho. Este estudo está avaliando o anticorpo monoclonal MBP134 e o antiviral remdesivir, tanto isoladamente quanto em combinação. O ensaio pode levar meses e pode até se estender até o próximo ano, sendo necessário recrutar mais de 1.000 pacientes para obter respostas definitivas.