Em Samburu, no Quênia, Eroi Lemarkat, um voluntário de saúde comunitária, percorre trilhas de terra em sua moto, respondendo a relatos de crianças que perderam o movimento em um ou mais membros. A suspeita é de poliomielite, uma doença que não registra casos no país desde 2013, mas que ainda pode ser desencadeada por uma cepa derivada da vacina em comunidades com baixa cobertura vacinal.

A detecção do poliovírus é crucial, especialmente em regiões remotas e nômades, onde as crianças são menos imunizadas. Para isso, o Quênia utiliza dois sistemas de vigilância complementares. Em Nairobi, autoridades de saúde testam rotineiramente águas residuais em busca de vestígios do vírus. Contudo, essa abordagem tem limitações, pois depende da existência de redes de esgoto, o que não é o caso na escassa população do norte do país.

Investigação de casos suspeitos

Em vez de esperar que crianças doentes cheguem até as unidades de saúde, voluntários como Lemarkat investigam relatos de paralisia flácida aguda (PFA) e coletam amostras de fezes para verificar a circulação do poliovírus. A informação sobre casos suspeitos se espalha rapidamente por vilarejos e assentamentos nômades, e Lemarkat segue cada pista, muitas vezes viajando por horas para chegar a famílias isoladas.

Antes de abordar os pais, ele busca a ajuda de líderes comunitários para conquistar a confiança da população. A rapidez na coleta de amostras é vital, pois os trabalhadores de saúde têm um prazo de 14 dias após o início da paralisia para confirmar a presença do vírus. “É uma corrida contra o tempo. Se chegarmos tarde, podemos perder a oportunidade de confirmar se a poliomielite é a causa”, explica Lemarkat.

Desafios na fronteira

Os desafios se intensificam na fronteira do Quênia com a Somália, onde comunidades pastorais frequentemente cruzam as fronteiras em busca de água e pastagens. “Essas comunidades nômades muitas vezes não têm consciência das jurisdições de saúde regional”, comenta Dr. Emmanuel Okunga, responsável pela vigilância de doenças no Ministério da Saúde do Quênia.

A confiança das comunidades é fundamental para o sucesso da vigilância. Muitos pais podem ser hesitantes em permitir a coleta de amostras de seus filhos, tornando o trabalho de Lemarkat ainda mais delicado. Com mais de cinco anos de experiência, ele sabe que a forma como aborda essas conversas pode determinar o sucesso ou o fracasso na coleta de amostras.

Além de esforços locais, a contenção do vírus requer colaboração internacional. “As equipes de ambos os lados da fronteira devem trabalhar em perfeita sintonia para garantir que nenhuma criança migrante passe despercebida”, afirma Dr. Pius Mutuku, do Centro de Operações de Emergência em Saúde Pública do Ministério da Saúde.

A vigilância contínua e a resposta rápida a cada caso suspeito são essenciais para prevenir a propagação do poliovírus. Para Lemarkat, a missão é clara: “Temos que salvar cada criança. As crianças são nosso futuro.”