Mariza Santana A literatura mundial é repleta de romances que tratam do relacionamento amoroso entre um homem maduro e uma ninfeta. Um dos principais exemplos é o livro “Lolita”, de autoria do russo Vladimir Nabokov, que causou muita polêmica por narrar a paixão doentia de um intelectual de meia-idade por sua enteada de 12 anos. A obra só foi publicada em 1955.

O período do romance é anterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e à bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki, mas que já apontava mudanças expressivas e irreversíveis na vida cotidiana dos japoneses. O romance “Amor Insensato” (Companhia das Letras, 280 páginas, tradução de Jefferson José Teixeira), do escritor japonês Junichiro Tanizaki, segue a mesma linha de “Lolita”, mas em um contexto nipônico. Sua narrativa questiona também a crescente ocidentalização do Japão nas primeiras décadas do século XX.  Junichiro Tanizaki: seu romance foi adaptado ao menos três vezes | Foto: Reprodução Joji Kawai, o protagonista e narrador da história, é um típico cidadão do interior, de 28 anos de idade, que se formou na faculdade e conseguiu um bom emprego em Tóquio.

Mas, ao invés de optar por um casamento tradicional, se encantou com Naomi, uma garçonete de apenas 15 anos que trabalhava em um café que frequentava. Como a jovem era integrante de uma família humilde, não foi difícil para o “rapaz ajuizado”, como ele próprio se descreve, adotá-la com o objetivo de “dar-lhe uma boa educação e transformá-la em uma mulher esplêndida”. A partir desse ponto, Joji dispõe de suas economias de solteiro para satisfazer todas os desejos e necessidades de Naomi, como frequentar aulas de inglês e de dança com uma instrutora russa, sem falar das muitas vestimentas caras solicitadas pela parceira.

Nos primeiros anos, Joji trata Naomi como um bebê, dando-lhe banho em uma banheira ocidental e até servindo de montaria para ela na brincadeira infantil do cavalinho, quando a garota usa uma toalha como arreio. Os anos passam, Naomi se torna uma bela mulher. E, como todas as jovens, começa a se cercar de rapazes de sua idade que conhecera nas aulas de dança.

Joji é obrigado a sair do mundo fechado do casal e se relacionar com outras pessoas, apesar da sua timidez e retraimento. Mas, quando Naomi completa 17 anos e eles alugam uma casa na praia para passar o verão, o protagonista finalmente descobre que é traído pela protegida, não com um, mas muitos outros homens, incluindo ocidentais. Do desespero à raiva, mas também tomado por uma paixão obsessiva, o então “rapaz ajuizado” perde de vez a razão.

Seguem momentos de sedução por parte de Naomi, que quer preservar a boa vida que tem, e de desespero de Joji, que perde totalmente o controle dos seus sentimentos e o rumo de sua vida. Nessa parte, temi que o romance tivesse um desfecho trágico, com um feminicídio. Mas o que ocorre é bem diferente e não vou adiantar aqui para garantir o prazer do leitor ao saborear essa obra-prima.

Ocidentalização do Japão Além disso, ao longo do livro vamos acompanhando os personagens buscando identificação com a cultura dos Estados Unidos. Isso é relatado nos encontros para dançar, nos filmes do cinema vão assistir e nos restaurantes de comida ocidental que frequentam.