O parlamento francês aprovou na terça-feira uma lei que reautoriza o uso de dois pesticidas banidos, o que gerou reações de indignação entre apicultores e ambientalistas. Os cientistas alertam que essas substâncias podem ser prejudiciais às abelhas, comprometendo sua sobrevivência.

“Não há palavras para descrever a frustração”, declarou Carolyn Bouguet, apicultora da região de Essonne, próxima a Paris. Segundo ela, as populações de abelhas já enfrentam desafios significativos devido às mudanças climáticas, novos parasitas e perda de habitat. “E agora isso”, completou.

Henri Clément, apicultor no departamento de Lozère e porta-voz da associação francesa de apicultura, a UNAF, classificou a medida como “um desastre absoluto para nosso setor e para a biodiversidade como um todo”. Ele ressaltou que o risco para as abelhas é elevado, com “altas taxas de mortalidade e redução das colheitas”. Clément acrescentou que é “incompreensível” a reautorização desses pesticidas, enfatizando que a luta contra eles já dura 30 anos. “É escandaloso, irracional e irresponsável”, afirmou.

A nova legislação e suas implicações

A lei aprovada permite que a Agência Francesa de Segurança Alimentar e Ambiental (Anses) conceda isenções para o uso dos pesticidas acetamiprid e flupyradifurone em setores agrícolas em dificuldades, em circunstâncias excepcionais. Esses pesticidas, embora permitidos na União Europeia, foram banidos na França e agora poderão ser utilizados para combater doenças transmitidas por pulgões que ameaçam culturas de beterraba, maçãs, avelãs e cerejas. Produtores alegam que a concorrência com rivais europeus se tornou insustentável.

Estudos científicos indicam que o acetamiprid, um neonicotinoide com efeitos neurotóxicos, pode afetar a capacidade de forrageamento e a memória das abelhas. Um estudo de 2024 sugeriu que o flupyradifurone poderia ser letal para algumas abelhas melíferas.

Reações e consequências políticas

A Greenpeace França criticou o governo centrista e seus aliados de direita no parlamento, afirmando que estão “desrespeitando a ciência, a saúde, o meio ambiente e a clara vontade do povo”. A organização descreveu a nova legislação como “profundamente preocupante” e “uma vergonha”. A ministra do Meio Ambiente, Monique Barbut, chamou a legislação de “um retrocesso ambiental a mais” e apresentou sua renúncia na quarta-feira, mas acabou sendo convencida a permanecer após uma reunião com o presidente Emmanuel Macron.

Por outro lado, a maior união de agricultores da França, a FNSEA, comemorou a aprovação da lei como “um marco importante e uma vitória para os agricultores franceses”. A ministra da Agricultura, Annie Genevard, afirmou que a legislação oferece “soluções reais e tangíveis” para os produtores. De acordo com dados do ministério da Agricultura, a produção de mel na França caiu pela metade entre meados da década de 1990 e meados da década de 2010, período em que os neonicotinoides foram introduzidos.

Bouguet mencionou que a França serviu de exemplo para outros países ao banir os neonicotinoides, com pesquisas científicas demonstrando que esses pesticidas afetam não apenas insetos, mas também ecossistemas do solo e podem impactar a saúde humana. “As abelhas são o canário na mina de carvão ambiental”, advertiu.

Grupos ambientais e membros do parlamento de esquerda afirmaram que levarão a nova lei ao conselho constitucional, alegando que ela não fornece salvaguardas adequadas para a saúde humana e o meio ambiente.