“Polícia, para quem precisa de polícia. A música dos Titãs perguntava, amargamente, qual o sentido ou a justificativa para a existência do aparato policial. Cabeça de Dinossauro, o álbum da qual era parte, foi lançado em 1986, o primeiro ano após o fim oficial da ditadura civil-militar.

De lá para cá umas tantas coisas mudaram, muitas continuam exatamente como antes ou, pelo menos, muito parecidas. Muitas se tornaram pior. Na polícia, tanto quanto na política — e ao que parece, uma e outra se tornaram profundamente imbricadas.

Tão imbricadas que às vezes, ao despertar pela manhã e nos depararmos com as manchetes do dia, temos a sensação de que uma passou a ocupar o lugar da outra, a política sendo substituída pela polícia. E, num primeiro momento, até nos sentimos reconfortados. Conservadores querem a volta ao tempo das dinastias hereditárias — os que lhes daria também uma espécie de habeas-corpus contra possíveis “excessos” que o futuro possa estar lhes reservando O Rio de Janeiro, berço e sustentáculo ainda importante do bolsonarismo, é provavelmente o palco privilegiado dessa barafunda que nos empurra para o atraso, as trevas, a violência e a tragédia.

Flávio Bolsonaro: quer governar o Brasil ou Bolsonaristão? | Foto: Reprodução/redes sociais Dia sim e no outro também, as manchetes chamam a atenção para casos policiais envolvendo políticos aliados do capitão na cidade e no Estado. “Operação no RJ — Flávio (Bolsonaro, é claro) afirmou que ‘houve excesso’ em operações policiais que atingiram seus aliados no Rio de Janeiro”, dizia uma delas.

E não era para menos. A matéria informava que, “questionado sobre investigações contra o ex-governador Claudio Castro (PL) e o ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (União), além do ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canela (União)… pré-candidato ao Senado pelo Rio…”, o “01” chiou. Acaso e a hora do espanto A lista de fanáticos aliados metidos em assuntos policiais, meramente policiais, digo, é muito mais extensa.

Só para que se tenha uma ideia, desde 2017 apenas um dos presidentes da Assembleia Legislativa do Rio não foram parar na cadeia — André Ceciliano, do PT. Donald Trump: o rei-republicano quer “presidir” o Brasil | Foto: Reprodução Há crimes para todos os apetites, desde assassinato de criança até porte ilegal de fuzil. O todo poderoso ex-governador Claudio Castro, por exemplo, metido até o pescoço no escândalo do Banco Master, e num vasto menu de outros crimes, se viu gradualmente obrigado a abandonar a carreira política.

(Pausa para espanto: no pé da notícia mencionada, a informação de que até a mãe dos quatro conhecidos pimpolhos está procurando guarida em algum cargo eletivo — é a suplente do indiciado candidato ao Senado Márcio Canela. Aposto que essa você não sabia.  Mas faz todo sentido. Pelo menos para o clã que, surfando na onda ultradireitista que assola o planeta, tenta por todos os meios e laços familiais continuar usufruindo as benesses do poder que meio ao acaso lhes caiu no colo.

Ao que tudo indica, o que querem é a volta ao tempo das dinastias hereditárias — o que lhes daria também uma espécie de habeas-corpus contra possíveis [e prováveis] “excessos” que o futuro possa estar lhes reservando.) Programa de governo é a família Às vésperas da oficialização das candidaturas à Presidência da República — e do registro oficial dos programas de governo, tornam-se a cada passo mais evidentes os interesses em torno dos quais se organiza o bolsonarismo.